Paul Verlaine: “It rains in my heart”

lluvia de abril 2
Paul Verlaine (1844-1916)
Il pleure dans mon coeur
.
Il pleure dans mon coeur
Comme il pleut sur la ville;
Quelle est cette langueur
Qui pénètre mon coeur?
.
Ô bruit doux de la pluie
Par terre et sur les toits!
Pour un coeur qui s’ennuie,
Ô le chant de la pluie!
.
Il pleure sans raison
Dans ce coeur qui s’écoeure.
Quoi! nulle trahison ?…
Ce deuil est sans raison.
.
C’est bien la pire peine
De ne savoir pourquoi
Sans amour et sans haine
Mon coeur a tant de peine!

. . .
Paul Verlaine
Llora en mi corazón
(Traducción del francés al español: Carmen Morales y Claude DuBois)
.
Llora en mi corazón
como llueve en la ciudad;
¿qué languidez es ésa
que penetra en mi corazón?
.
¡Oh, ruido suave de la lluvia
en la tierra y en los tejados!
Para un corazón que se aburre
¡el canto de la lluvia!
.
Llueve sin razón
en este corazón que se revuelve.
¡Qué! ¿Ninguna traición?…
Ese luto es sin razón.
.
¡Es pues la peor pena
no saber por qué,
sin amor y sin odio,
mi corazón siente tanta pena!
. . .
Paul Verlaine
Chora em meu coração
(Tradução de Amélia Pais)
.
Chora em meu coração
Como chove na cidade:
Que lassidão é esta
Que invade meu coração?
.
Oh doce rumor da chuva
Na terra e nos telhados!
Num coração que se enfada
Oh o canto da chuva!
.
Chora sem razão
Neste coração exausto.
O quê! nenhuma traição ?…
Este luto é sem razão.
.
E é bem a dor maior
A de não saber porquê
Sem amor e sem rancor
Meu coração tanto dói!
. . .
Paul Verlaine (1844-1896)
It Rains in My Heart
.
It rains in my heart
As it rains on the town,
What languor so dark
That it soaks to my heart?
.
Oh, sweet sound of the rain
On the earth and the rooves!
For the dull heart again,
Oh, the song of the rain!
.
It rains for no reason
In this heart lacking heart.
What? And no treason?
It’s grief without reason!
.
By far the worst pain,
Without hatred or love,
Yet no way to explain
Why my heart feels such pain!

. . . . .


Sexta-Feira Santa: Poemas

Albrecht Durer_Betende Hände_Praying Hands or Study of the Hands of an Apostle_drawn circa 1508
José Carlos Brandão (Dois Córregos, Brasil, 1947)
Prece
.
Senhor, dai-me paciência para esperar.
Senhor, dai-me o silêncio das esferas
e a música, a inaudível música dos anjos.
Dai-me a palavra para cantar a vossa glória.
Dai-me a luz para ver a vossa face
e espantar-me
e cair por terra.
Dai-me a graça de ver,
refletido no lago do tempo,
o eterno.
. . .
A Sombra Na Montanha
.
Uma sombra cai
sobre a montanha.

É sol onde estou.
Ainda é sol.

Não desça a sombra, Senhor,
antes que eu suba a montanha.
. . .
Sementes
.
O meu pai passeava entre os túmulos
contando a história dos seus mortos,
.
sementes plantadas na terra
para florescer no devido tempo.

Os mortos vieram do passado longínquo
e se plantaram para não mais morrer.
.
Quando chegar a minha hora de ser semente
sei que a terra inteira não me bastará
.
para os frutos da minha ressurreição.
. . .

Amém
.
Ó Deus, quando me criaste um vulcão explodiu.
Os lagos se fizeram lavas e voaram como cisnes rubros.
Eu me julguei um cavalo voando além da terra e do céu.
Eu pensei que sabia todas as respostas.
.
Pensei que podia inundar o deserto com minhas ondas.
O meu mar de soberba era insaciável
Continua insaciável o meu abismo de soberba e molície.
A tua Mãe me pisou a cabeça, eu era a serpente.
.
A tua e minha Mãe me carregou no colo, eu era a criança desprotegida.
Eu era um verme do pó, indigno do perdão, indigno do Pão da tua carne.
O teu Verbo me salva contra qualquer expectativa.
O teu Verbo se ergue contra a minha insignificância e a luz é feita.
.
A tua Luz, ó meu Senhor, o teu Espírito desce contra as trevas da minha alma.
A tua língua de fogo se eleva e a minha alma será salva.
Ó Deus, amém.
.
Espero a condenação com a certeza dos pérfidos.
Espero a condenação: o meu prêmio, o labéu da minha infâmia.
Se queres salvar-me, amém. Ó Deus, amém.
. . .

Other Good Friday poems, in English and Spanish / Outros poemas (em espanhol e inglês):
https://zocalopoets.com/tag/poemas-para-viernes-santo/

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Miguel Torga: “Pietà”

Lucas Cranach the Elder_Pietà beneath the Cross_painted circa 1510

Miguel Torga (1907-1995)
Pietà (1939)
.
Vejo-te ainda, Mãe, de olhar parado,
Da pedra e da tristeza, no teu canto,
Comigo ao colo, morto e nu, gelado,
Embrulhado nas dobras do teu manto.
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Sobre o golpe sem fundo do meu lado
Ia caindo o rio do teu pranto;
E o meu corpo pasmava, amortalhado,
De um rio amargo que adoçava tanto.
.
Depois, a noite de uma outra vida
Veio descendo lenta, apetecida
Pela terra-polar de que me fiz;
.
Mas o teu pranto, pela noite além,
Seiva do mundo, ia caindo, Mãe,
Na sepultura fria da raiz.

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A Paixão de Cristo em imagens:

https://zocalopoets.com/2014/04/18/la-pasion-de-jesus-en-imagenes-the-passion-in-pictures/

 


Vinícius de Moraes: Fidelidade, Separação, Intimidade: Three Sonnets

Ipanema Beach in Rio, at sunset_vintage colour photograph from the 1960s

Ipanema Beach in Rio, at sunset_vintage colour photograph from the 1960s

Vinícius de Moraes
(lyricist and poet, Rio de Janeiro, 1913-1980)
.
Sonnet on Fidelity
.
Above all, to my love I’ll be attentive
First, and always with such ardour, so much
That even when confronted by this great
Enchantment my thoughts ascend to more delight.
.
I want to live it through in each vain moment
And in its honour I must spread my song
And laugh with my delight and shed my tears
When she is sad or when she is contented.
.
And thus, when afterward comes looking for me
Who knows what death, anxiety of the living,
Who knows what loneliness, end of the loving,
.
I could say to myself of the love I had:
Let it not be immortal, since it is a flame
But let it be infinite – while it lasts.
. . .
Sonnet on Separation
.
Suddenly, laughter became sobbing
Silent and white like the mist
And united mouths became foam
And upturned hands became astonished.
.
Suddenly, the calm became the wind
That extinguished the last flame in the eyes
And passion became foreboding
And the still moment became drama.
.
Suddenly, no more than suddenly,
He who’d become a lover became sad
And he who’d become content became lonely.
.
The near became the distant friend
Life became a vagrant venture
– suddenly, no more than suddenly.
. . .
Sonnet on Intimacy
.
Farm afternoons, there’s much too much blue air.
I go out sometimes, follow the pasture track,
Chewing a blade of sticky grass, chest bare,
In threadbare pyjamas of three summers back,
.
To the little rivulets in the river-bed
For a drink of water, cold and musical,
And if I spot in the brush a glow of red,
A raspberry, spit its blood at the corral.
.
The smell of cow manure is delicious.
The cattle look at me unenviously
And when there comes a sudden stream and hiss
.
Accompanied by a look not unmalicious,
All of us, animals, unemotionally
Partake together of a pleasant piss.
. . .
Translations from Portuguese into English:
Ashley Brown (Fidelity, Separation) and Elizabeth Bishop (Intimacy)

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Soneto de Fidelidade
.
De tudo, ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zêlo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dêle se encante mais meu pensamento.
.
Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento.
.
E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive,
Quem sabe a solidão, fim de quem ama
.
Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, pôsto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.
. . .

Soneto de Separação
.
De repente do riso fez-se o pranto
Silencioso e branco como a bruma
E das bocas unidas fez-se a espuma
E das mãos espalmadas fez-se o espanto.
.
De repente da calma fez-se o vento
Que dos olhos desfez a última chama
E da paixão fez-se o pressentimento
E do momento imóvel fez-se o drama.
.
De repente, não mais que de repente,
Fez-se de triste o que se fez amante
E de sozinho o que se fez contente.
.
Fez-se do amigo próximo o distante
Fez-se da vida uma aventura errante
De repente, não mais que de repente.

. . .

Soneto de Intimidade
.
Nas tardes da fazenda ha muito azul demais.
Eu saio as vezes, sigo pelo pasto, agora
Mastigando um capim, o peito nu de fora
No pijama irreal de ha três anos atrás.
.
Desço o rio no vau dos pequenos canais
Para ir beber na fonte a agua fria e sonora
E se encontro no mato o rubro de uma aurora
Vou cuspindo-lhe o sangue em torno dos currais.
.
Fico ali respirando o cheiro bom do estrume
Entre as vacas e os bois que me olham sem ciume
E quando por acaso uma mijada ferve
.
Seguida de um olhar não sem malícia e verve
Nos todos, animais, sem comoção nenhuma
Mijamos em comum numa festa de espuma.
. . .

These three sonnets were written in the late 1930s, when de Moraes was in his mid twenties. The poet would later become famous as the lyricist for the 1962 international bossa-nova hit song, A Garota de Ipanema (The Girl from Ipanema).
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Castro Alves: “O Navo Negreiro” / “The Slave Ship”

Negra com o filho_ Salvador em 1884

O Navio Negreiro é um poema de Castro Alves – e um dos mais conhecidos da literatura brasileira. O poema descreve com imagens e expressões terríveis a situação dos Africanos arrancados de suas terras, separados de suas famílias e tratados como animais nos “navios negreiros” que os traziam para ser propriedade de senhores e trabalhar sob as ordens dos feitores.
Foi escrito no ano de 1869, quando o poeta tinha vinte e dois anos de idade, e quase vinte anos depois da promulgação da Lei Eusébio de Queirós, que proibiu o tráfico de escravos (1850).
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The Slave Ship (O Navo Negreiro) by Castro Alves is a classic of Late Romantic 19th-century poetry in Brazil. An ambitious, panoramic “story”, The Slave Ship shows a poet caught up in the great social/political theme of his time: Abolitionism – the movement to end Slavery. Written in 1869, this poem radiates all the idealism of youth – Alves was 22 – and is meant to agitate the reader through moral drama. O Navo Negreiro was not published till 1880, nine years after Castro Alves’ death from tuberculosis – he was 24 – in the city of Salvador da Bahia.
In 1888, Slavery was finally abolished in Brazil.
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The use of slaves in Brazil began in the first half of the 16th century, and involved not the African “trade” but the Indigenous Peoples of Brazil. But by the second half of the 16th century the Portuguese colonists began a systematic importation of forced human labour via West African kingdoms. The sugar and coffee plantation economies – not to mention gold mining and cattle ranching – relied heavily on such regimented labour, although small “free” farmers existed too, though these mostly eked out a living in states such as Minas Gerais. Between 1600 and the mid-nineteenth century – when the “Middle Passage” trans-Atlantic slave trade was blockaded by the English navy – roughly 4 million Africans of various ethnicities and language groups had been brought to Brazil as slaves. Brazil’s importation of Africans for “use” in an economy that grew greatly because of a forced-labour economy was similar to the pattern of the U.S.A. – particularly during the 18th and 19th centuries.

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Castro Alves (1847-1871)

O Navo Negreiro (1869)

‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço
Brinca o luar — dourada borboleta;
E as vagas após ele correm… cansam
Como turba de infantes inquieta.

‘Stamos em pleno mar… Do firmamento
Os astros saltam como espumas de ouro…
O mar em troca acende as ardentias,
— Constelações do liquido tesouro…

‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, placidos, sublimes…
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?…

‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
Ao quente arfar das virações marinhas,
Veleiro brigue corre à flor dos mares,
Como roçam na vaga as andorinhas…

Donde vem? onde vai? Das naus errantes
Quem sabe o rumo se é tao grande o espaço?
Neste saara os corcéis o pó levantam,
Galopam, voam, mas nao deixam traço.

Bem feliz quem ali pode nest’hora
Sentir deste painel a majestade!
Embaixo — o mar em cima — o firmamento…
E no mar e no céu — a imensidade!

Oh! que doce harmonia traz-me a brisa!
Que música suave ao longe soa!
Meu Deus! como é sublime um canto ardente
Pelas vagas sem fim boiando à toa!

Homens do mar! ó rudes marinheiros,
Tostados pelo sol dos quatro mundos!
Crianças que a procela acalentara
No berço destes pélagos profundos!

Esperai! esperai! deixai que eu beba
Esta selvagem, livre poesia,
Orquestra — é o mar, que ruge pela proa,
E o vento, que nas cordas assobia…

Por que foges assim, barco ligeiro?
Por que foges do pavido poeta?
Oh! quem me dera acompanhar-te a esteira
Que semelha no mar — doudo cometa!

Albatroz! Albatroz! aguia do oceano,
Tu que dormes das nuvens entre as gazas,
Sacode as penas, Leviathan do espaço,
Albatroz! Albatroz! da-me estas asas.
. . .
Que importa do nauta o berço,
Donde é filho, qual seu lar?
Ama a cadência do verso
Que lhe ensina o velho mar!
Cantai! que a morte é divina!
Resvala o brigue à bolina
Como golfinho veloz.
Presa ao mastro da mezena
Saudosa bandeira acena
As vagas que deixa após.

Do Espanhol as cantilenas
Requebradas de langor,
Lembram as moças morenas,
As andaluzas em flor!
Da Italia o filho indolente
Canta Veneza dormente,
— Terra de amor e traiçao,
Ou do golfo no regaço
Relembra os versos de Tasso,
Junto às lavas do vulcao?

O Inglês — marinheiro frio,
Que ao nascer no mar se achou,
(Porque a Inglaterra é um navio,
Que Deus na Mancha ancorou),
Rijo entoa patrias glóorias,
Lembrando, orgulhoso, históorias
De Nelson e de Aboukir.. .
O Francês — predestinado —
Canta os louros do passado
E os loureiros do porvir!

Os marinheiros Helenos,
Que a vaga jônia criou,
Belos piratas morenos
Do mar que Ulisses cortou,
Homens que Fidias talhara,
Vao cantando em noite clara
Versos que Homero gemeu…
Nautas de todas as plagas,
Vós sabeis achar nas vagas
As melodias do céu!…

Desce do espaço imenso, ó aguia do oceano!
Desce mais… inda mais… nao pode olhar humano
Como o teu mergulhar no brigue voador!
Mas que vejo eu ai… Que quadro d’amarguras!
É canto funeral!… Que tétricas figuras!…
Que cena infame e vil… Meu Deus! Meu Deus! Que horror!

. . .
Era um sonho dantesco… o tombadilho
Que das luzernas avermelha o brilho.
Em sangue a se banhar.
Tinir de ferros… estalar de açoite…
Legiões de homens negros como a noite,
Horrendos a dançar…

Negras mulheres, suspendendo às tetas
Magras crianças, cujas bocas pretas
Rega o sangue das maes:
Outras moças, mas nuas e espantadas,
No turbilhao de espectros arrastadas,
Em ânsia e magoa vas!

E ri-se a orquestra irônica, estridente…
E da ronda fantastica a serpente
Faz doudas espirais…
Se o velho arqueja, se no chao resvala,
Ouvem-se gritos… o chicote estala.
E voam mais e mais…

Presa nos elos de uma só cadeia,
A multidao faminta cambaleia,
E chora e dança ali!
Um de raiva delira, outro enlouquece,
Outro, que martirios embrutece,
Cantando, geme e ri!

No entanto o capitao manda a manobra,
E após fitando o céu que se desdobra,
Tão puro sobre o mar,
Diz do fumo entre os densos nevoeiros:
“Vibrai rijo o chicote, marinheiros!
Fazei-os mais dançar!…”

E ri-se a orquestra irônica, estridente. . .
E da ronda fantastica a serpente
Faz doudas espirais…
Qual um sonho dantesco as sombras voam!…
Gritos, ais, maldiçõoes, preces ressoam!
E ri-se Satanas!…
. . .
Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus!
Se é loucura… se é verdade
Tanto horror perante os céus?!
O mar, por que nao apagas
Co’a esponja de tuas vagas
De teu manto este borrao?…
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufao!

Quem sao estes desgraçados
Que nao encontram em vos
Mais que o rir calmo da turba
Que excita a fúria do algoz?
Quem sao?  Se a estrela se cala,
Se a vaga à pressa resvala
Como um cumplice fugaz,
Perante a noite confusa…
Dize-o tu, severa Musa,
Musa libérrima, audaz!…

Sao os filhos do deserto,
Onde a terra esposa a luz.
Onde vive em campo aberto
A tribo dos homens nus…
Sao os guerreiros ousados
Que com os tigres mosqueados
Combatem na solidao.
Ontem simples, fortes, bravos.
Hoje miseros escravos,
Sem luz, sem ar, sem razao. . .

Sao mulheres desgraçadas,
Como Agar o foi também.
Que sedentas, alquebradas,
De longe… bem longe vêm…
Trazendo com tibios passos,
Filhos e algemas nos braços,
N’alma — lagrimas e fel…
Como Agar sofrendo tanto,
Que nem o leite de pranto
Têm que dar para Ismael.

Lá nas areias infindas,
Das palmeiras no pais,
Nasceram crianças lindas,
Viveram moças gentis…
Passa um dia a caravana,
Quando a virgem na cabana
Cisma da noite nos véus…
… Adeus, ó choça do monte,
… Adeus, palmeiras da fonte!…
… Adeus, amores… adeus!…

Depois, o areal extenso…
Depois, o oceano de pó..
Depois no horizonte imenso
Desertos… desertos só…
E a fome, o cansaço, a sede…
Ai! quanto infeliz que cede,
E cai p’ra nao mais s’erguer!…
Vaga um lugar na cadeia,
Mas o chacal sobre a areia
Acha um corpo que roer.

Ontem a Serra Leoa,
A guerra, a caça ao leao,
O sono dormido à toa
Sob as tendas d’amplidao?
Hoje… o porao negro, fundo,
Infecto, apertado, imundo,
Tendo a peste por jaguar…
E o sono sempre cortado
Pelo arranco de um finado,
E o baque de um corpo ao mar…

Ontem plena liberdade,
A vontade por poder…
Hoje… cúum’lo de maldade,
Nem sao livres p’ra morrer. .
Prende-os a mesma corrente
— Férrea, lúgubre serpente —
Nas roscas da escravidao.
E assim zombando da morte,
Dança a lúgubre coorte
Ao som do açoute… Irrisao!…

Senhor Deus dos desgraçados!
Dizei-me vós, Senhor Deus,
Se eu deliro… ou se é verdade
Tanto horror perante os céus?!…
O mar, por que nao apagas
Co’a esponja de tuas vagas
Do teu manto este borrao?
Astros! noites! tempestades!
Rolai das imensidades!
Varrei os mares, tufao?…
. . .
Existe um povo que a bandeira empresta
P’ra cobrir tanta infâmia e cobardia!…
E deixa-a transformar-se nessa festa
Em manto impuro de bacante fria!…
Meu Deus! meu Deus! mas que bandeira é esta,
Que impudente na gavea tripudia?
Silêncio.  Musa… chora, e chora tanto
Que o pavilhão se lave no teu pranto!…

Auriverde pendao de minha terra,
Que a brisa do Brasil beija e balança,
Estandarte que a luz do sol encerra
E as promessas divinas da esperança…
Tu que, da liberdade após a guerra,
Foste hasteado dos heróis na lança
Antes te houvessem roto na batalha,
Que servires a um povo de mortalha!…

Fatalidade atroz que a mente esmaga!
Extingue nesta hora o brigue imundo
O trilho que Colombo abriu nas vagas,
Como um iris no pélago profundo!
Mas é infâmia demais!… Da etérea plaga
Levantai-vos, heróis do Novo Mundo!
Andrada! arranca esse pendao dos ares!
Colombo! fecha a porta dos teus mares!
. . . . .

 

 Escravos na colheita do café_Rio de Janeiro_1882Lavagem do ouro_ Minas Gerais_1880.

As fotografias são do acervo do Instituto Moreira Salles, algumas delas foram feitas há mais de 130 anos. A qualidade do material, tanto no sentido gráfico quanto em detalhes de comentários nas suas legendas, impressiona e aproxima aqueles que querem entender o cenário escravocrata brasileiro.

Elas datam entre 1860 e 1885, período em que movimento abolicionista tomou maiores proporções. São registros muitas vezes idealizados, de tom artístico, se assemelhando às pinturas da época. Diferente de alguns casos de propaganda abolicionista nos Estados Unidos, o objetivo dessas fotos não é denunciar barbaridades.


Verde – Negro / Green – Black

What colour is this because I am not sure...

Verde Negro
dever
de ver
tudo verde
tudo negro
verde-negro
muito verde
muito negro
ver de dia
ver de noite
verde noite
negro dia
verde-negro
verde vós
verem eles
virem eles
virdes vós
verem todos
tudo negro
tudo verde
verdenegro

Mark Rothko_Untitled_1969

Green Black
green
grin
all green
all black
green-black
very green
very black
see the day
see the night
a green night
a black day
green-black
wait your turn
turn around
round the turn
I see
I agree
I am green
ay sí
I see all
all black
all green
greenblack

. . . . .


Poetas dos anos 90: “A margem das coisas” / “On the edge of things”: Ricardo Corona

Gordon Parks photographer_featuring Bettina Graziani_Sophie Malagat Litvak_1950

Ricardo Corona (born 1962, Curitiba, Paraná, Brazil)
On the Edge of All Things: A Song
(for Eliana)

.
I heard the hissing rustle of the liquid and sands as directed to me whispering to congratulate me.
Walt Whitman
.

   I am on the edge

                                                                                                                                                                and here – in the atrium

of encounters – between feeling and seeing:

                                                                                                                                                                it vibrates, it frightens. Nothing is

empty now. The camera-eye clicks and leaks

                                                                                                                                                                spilling forth dizziness in a clip

of happening & landscapes,

                                                                                                                                                                memory chips. Everything passing,

                                                                                                                             passing – movies

                                                                                                                                                               : ex-foam

                                                                                                                                                    birds

                                                                                                                                                               fish

                                                                                                                   now a house twinkles

                                                                                                                                                               a drunken boat dances

                                                                                                             the wind trembles a tree

                                                                                                                                                               wild waves rise up

smashing against the velvet rocks

                                                                                                                                                               wild waves slip away

                                                                                                                   licking my footprints

                                                                                                                                                               – I am no longer here –

                                                                                                                                            and love

                                                                                                                                                               is no greater

                                                                                                                                           or lesser

                                                                                                                                                               than the sea.

. . .

Na Margem de Todas as Coisas: Uma Canção
(para Eliana)
.
I heard the hissing rustle of the liquid and sands as directed to me whispering to congratulate me.
Walt Whitman
.
Estou na margem

e aqui – entre os, no atrito

dos encontros – sentir e ver:

vibra, apavora. Nada está

vazio agora. O olho-câmera clica e vaza

vertendo vertigens num clip

de lances & paisagens,

chips de memórias. Tudo passando,

passando – movies

: ex-espumas

pássaros

peixes

agora uma casa pisca

um barco bêbado dança

o vento arvora uma árvore

ondas loucas se erguem

despedaçando-se no veludo das pedras

ondas loucas deslizam

lambendo minhas pegadas

– não mais estou –

e o amor

não é maior

nem menor

que o mar.

.

Florianópolis, Praia dos Ingleses, 11.2.94

. . .

Translation from Portuguese to English © David William Foster and Maurício Arruda Mendonça

Photograph by Gordon Parks (1912-2006)
. . . . .