Ataulfo Alves: “In a masquerade of Joy I hid my Sadness…”

Ataulfo Alves  (Sambista brasileiro, 1906-1969)

“Ilusão de carnaval”

.

Mascarado de alegria

Escondi minha tristeza

Terminada a folia

Sou mais triste com certeza

Ilusão de carnaval

Enganei somente a mim

Sem pensar que afinal

Carnaval também tem fim.

*

Ataulfo Alves 

(Brazilian Samba composer, 1906-1969)

“Carnival Illusion”

.

In a masquerade of Joy

I hid my Sadness.

Revelry done,

More sad than ever

Am I…

.

You Illusion – oh Carnival !

I merely tricked myself

Without thinking that,

After all,

Carnival too comes to an end.

 

.

Translation from Portuguese:

Alexander Best


Djavan: “Face of the Indian” / “Cara de Índio”

Letra da canção de

cantor e compositor afrobrasileiro

Djavan (nasce 1949)

“Cara de Índio”(1978)

 

 

Índio cara pálida,

cara de índio.

Índio cara pálida,

cara de índio.

Sua ação é válida, meu caro índio.

Sua ação é válida, válida ao índio.

Nessa terra tudo dá,

terra de índio.

Nessa terra tudo dá,

não para o índio.

Quando alguém puder plantar,

quem sabe índio.

Quando alguém puder plantar,

não é índio.

Índio quer se nomear,

nome de índio.

Índio quer se nomear,

duvido índio.

Isso pode demorar,

te cuida índio.

Isso pode demorar,

coisa de índio.

*

Índio sua pipoca,

tá pouca índio.

Índio quer pipoca,

te toca índio.

Se o índio se tocar,

touca de índio.

Se o índio toca,

não chove índio.

Se quer abrir a boca,

pra sorrir índio.

Se quer abrir a boca,

na toca índio.

*

A minha também tá pouca,

cota de índio.

Apesar da minha roupa,

também sou índio.

 

_____

 

Djavan

(Brazilian songwriter, born 1949)

“The Indian Face” (1978)

 

 

Indio pale-face

Indian face.

Pale-face Indio

Your action is just, my dear Indio.

Your action is valid, right for the Indian.

In that land everything grows

– the Indian’s land.

In that land everything grows

– but not for the Indian.

When someone can plant,

who knows? The Indio.

When someone inspires,

Isn’t it the Indio?

An Indian wants to call himself

an Indian name.

Indio wants to call himself himself

– I doubt it, Indio

– that might take time – take care,

That might take time,

The Indian thing.

*

Indio gets just

A little “popcorn”.

He wants “popcorn” too

– it’s your turn, Indio.

If the Indian touches his head

it doesn’t rain.

If he wants to open his mouth

– Smile, Indio.

If he wants to open his mouth,

Don’t touch him.

*

I also have little,

An Indian’s share.

Despite my clothes,

I’m an Indio, too.

 

_____


Jorge Ben Jor: Day of the Indian / Dia de Índio

_____

Jorge Ben Jor (nasce 1942)

“Curumin chama cunhãtã que eu vou contar

(Todo dia era Dia de Índio)”  (1981)

Hey  Hey  Hey!

Hey  Hey  Hey!

Jês, Kariris, Karajás, Tukanos, Caraíbas,

Makus, Nambikwaras, Tupis, Bororós,

Guaranis, Kaiowa, Ñandeva, YemiKruia

Yanomá, Waurá, Kamayurá, Iawalapiti,

Txikão, Txu-Karramãe, Xokren, Xikrin,

Krahô, Ramkokamenkrá, Suyá !

*

Curumim chama cunhatã que eu vou contar

Cunhatã chama curumim que eu vou contar

Curumim, cunhatã

Cunhatã, curumim

*

Antes que os homens aqui pisassem

Nas ricas e férteis terraes brazilis

Que eram povoadas e amadas por milhões de índios

Reais donos felizes

Da terra do pau-brasil

Pois todo dia, toda hora, era dia de índio

Pois todo dia, toda hora, era dia de índio

*

Mas agora eles só têm um dia

O dia dezenove de abril…

Amantes da pureza e da natureza

Eles são de verdade incapazes

De maltratarem as fêmeas

Ou de poluir o rio, o céu e o mar

Protegendo o equilíbrio ecológico

Da terra, fauna e flora.

Pois na sua história, o índio

É o exemplo mais puro

Mais perfeito, mais belo

Junto da harmonia da fraternidade.

É da alegria,

Da alegria de viver

Da alegria de amar.

Mas no entanto agora

O seu canto de guerra

É um choro de uma raça inocente…

Que já foi muito contente

Pois antigamente

Todo dia, toda hora, era dia de índio.

*

Jês, Kariris, Karajás, Tukanos, Caraíbas,

Makus, Nambikwaras, Tupis, Bororós,

Guaranis, Kaiowa, Ñandeva, YemiKruia

Yanomá, Waurá, Kamayurá, Iawalapiti, Suyá,

Txikão, Txu-Karramãe, Xokren, Xikrin, Krahô,

Ramkokamenkrá, Suyá !

*

Todo dia, toda hora, era dia de índio…..

Curumim, cunhatã / Hey! Hey! Hey!

Hey! Hey! Hey! / Cunhatã, curumim…..

_____

Jorge Ben Jor

“Every day, every hour, was the Day of the Indian”

Hey  Hey  Hey!

Hey  Hey  Hey!

Jês, Kariris, Karajás, Tukanos, Caraíbas,

Makus, Nambikwaras, Tupis, Bororós,

Guaranis, Kaiowa, Ñandeva, YemiKruia

Yanomá, Waurá, Kamayurá, Iawalapiti,

Suyá, Txikão, Txu-Karramãe, Xokren, Xikrin,

Krahô, Ramkokamenkrá, Suyá !

*

Call:   “Curumim cunhatã” – I’m going to tell it.

Cry:   “Cunhatã curumim” is how I’m going to tell it.

Curumim, cunhatã

Cunhatã, curumim

*

Before people trod here

Upon this rich and fertile land of Brazil

It was populated and loved by millions of Indians,

Happy moneyless owners

Of this land of “Brazil-wood”.

Back then, every day, every hour, was the Day of the Indian.

But now they have only one day,

The 19th of April…

*

Lovers of purity, of nature,

They knew truth, incapable of

Mistreating Woman

Or of polluting river, sky and sea,

Protecting the ecological equilibrium

Of earth, flora and fauna.

And so, in history,  the Indio

Is an exemplar most pure,

Perfect and beautiful.

Together in the harmony of humanity

He gives joy – joy of life,  joy of love.

Now, though, theirs is a war song – and it’s

The cry of an innocent race…

In olden times they were most happy because

Every day, every hour, was the Day of the Indian.

*

Jês, Kariris, Karajás, Tukanos, Caraíbas,

Makus, Nambikwaras, Tupis, Bororós,

Guaranis, Kaiowa, Ñandeva, YemiKruia

Yanomá, Waurá, Kamayurá, Iawalapiti,

Txikão, Txu-Karramãe, Xokren, Xikrin,

Krahô, Ramkokamenkrá, Suyá !

*

Every day, every hour, was the Day of the Indian.

Curumim, cunhatã / Hey! Hey! Hey!

Hey! Hey! Hey! / Cunhatã, curumim…..

_____

Glossary:

Jês, Kariris, Karajás, Tukanos, Caraíbas, etc.,

–  Ben gives us a list of names of the

Indian/Indigenous/Native Peoples of Brazil

The 19th of April – throughout Latin and South America,

this day – Dia Americano del Indio – draws attention to the

cultures, struggles and progress of Indigenous Peoples;

initiated in 1940 at Pátzcuaro, México, during the first

“Congreso Indigenista Interamericano”

/ InterAmerican Indigenous Congress


Jorge Ben Jor: “Em fevereiro tem carnaval…” / “In February there’s Carnaval…”

 

Jorge Ben Jor (born 1942)

“Tropical Country” (1969)

 

 

I live

In a tropical country

Blessed by God

And beautiful by nature

( and oh what beauty )

In February (February)

There’s Carnival (there’s Carnival)

I’ve got a VW “Bug” and a guitar

I’m from Flamengo*, and I’ve got a black girl

called Teresa!

( Samba, baby,

Samba, baby! )

*

I’m a young boy of average

intelligence (oh yeah)

But even so I’m happy

Because I don’t owe anything to anyone

(oh yeah)

Because I’m happy, yeah happy

with me!

*

I may not be a band-leader

(oh yeah)

But at home

all my friends

my buddies

respect me (oh yeah)

That’s what it means – being nice,

That’s the power of something extra

– and the joy-oy-oy-oy!

*

I live

In a tropical country

Blessed by God

And beautiful by nature

(and oh what beauty)

In February (in February)

There’s Carnival (There’s Carnival)

I’ve got a VW “Bug” and a guitar

I’m from Flamengo, and I’ve got a black girl

called Teresa!

( Samba, baby!

Samba, baby! )

*

Got a “Bug”,

a GUIT-ar,

Me, I’m Flamengan,

with a black gal called

Treeze… – from my Brazil!

 

 

 

* Flamengo – a neighbourhood in Rio de Janeiro, Brazil

 

_____

 

Jorge Ben Jor (nasce 1942)

“Pais Tropical” (1969)

 

 

Moro num país tropical,

abençoado por Deus

E bonito por natureza

(mas que beleza)

Em fevereiro (em fevereiro)

Tem carnaval (tem carnaval)

Tenho um fusca e um violão

Sou Flamengo

Tenho uma nêga

Chamada Tereza!

( “Sambaby!”

“Sambaby!” )

*

Sou um menino de mentalidade mediana

Pois é, mas assim mesmo sou feliz da vida

Pois eu não devo nada a ninguém

Pois é, pois eu sou feliz

Muito feliz comigo mesmo

*

Moro num país tropical,

abençoado por Deus

E bonito por natureza

(mas que beleza)

Em fevereiro (em fevereiro)

Tem carnaval (tem carnaval)

Tenho um fusca e um violão

Sou Flamengo

Tenho uma nêga

Chamada Tereza!

( “Sambaby!”

“Sambaby!” )

*

Eu posso não ser um “band-leader”

Pois é, mas assim mesmo lá em casa

Todos meus amigos,

meus camaradinhas me respeitam.

Pois é, essa é a razão da simpatia

Do poder, do algo mais e da alegria-a-a-a!

Tê um fu, um violão,

Sou Flamê

Tê uma nê

Chamá Terê… – do meu Brasil!

 

 

 

_____

 

Editor’s note:

Today is the opening day of Carnival 2012 in Rio de Janeiro,

and this song from the 1960s with its zest for life captures the

feeling of being young and alive,  Brazilian and Black!


Martinho da Vila: Voz Afro-Brasileira

Sob chuva_a escola de samba Morro da Casa Verde faz ensaio técnico para o Carnaval 2013 no Sambódromo do Anhembi_zona norte de São Paulo

Martinho de Vila (nasce 12 fevereiro 1938)

“Madrugada, Carnaval e chuva” (1970)

Carnaval, madrugada

Madrugada de carnaval

Cai a chuva no asfalto da avenida

E a escola, já começa a desfilar

Molha o surdo, molha o enredo, molha a vida

Do sambista cujo o sonho é triunfar

Cai o brilho do sapato do passista

Mas o samba tem é que continuar

Os destaques se desmancham na avenida

E o esforço já é sobrenatural

Mas a turma permanece reunida

Um apito incentiva o pessoal

E a escola já avança destemida

É o samba enfrentando o temporal

Madrugada,vai embora, vem o dia

E o sambista pensa em outro carnaval

E a todos novamente desafia

A vitória do seu samba é o ideal

Chama o surdo e o pandeiro pra folia

Alegria, alegria pessoal

Carnaval, carnaval, carnaval

Volta o surdo pra folia

Alegria pessoal.

Carnaval, carnaval, carnaval,

Volta o surdo pra folia,

Alegria pessoal.

 _____

“Brasil mulato” (1969)

Pretinha, procure um branco

Porque é hora de completa integração

Branquinha, namore um preto

Faça com ele a sua miscigenação

Neguinho, vá pra escola

Ame esta terra

Esqueça a guerra

E abrace o samba

Que será lindo o meu Brasil de amanhã

Mulato forte, pulso firme e mente sã

Quero ver madame na escola de samba sambando

Quero ver fraternidade

Todo mundo se ajudando

Não quero ninguém parado

Todo mundo trabalhando

Que ninguém vá a macumba fazer feitiçaria

Vá rezando minha gente a oração de todo dia

Mentalidade vai mudar de fato

O meu Brasil então será mulato.

_____



Carlos Drummond de Andrade: Um boi vê os homens + No meio do caminho

Carlos Drummond de Andrade

“Um boi vê os homens”

.

Tão delicados (mais que um arbusto) e correm e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos de alguma coisa. Certamente falta-lhes não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres e graves, por vezes.
Ah, espantosamente graves, até sinistros.
Coitados, dir-se-ia que não escutam nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço.
E ficam tristes e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos –
e perde-se a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pêlos, nos extremos de inconcebível fragilidade, e como neles há pouca montanha, e que secura e que reentrâncias e que impossibilidade de se organizarem em formas calmas, permanentes e necessárias.
Têm, talvez, certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido vazio interior que os torna tão pobres e carecidos de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.

*

In English:

“An Ox Looks At Man”

.

They are more delicate even than shrubs and they run
and run from one side to the other, always forgetting
something.
Surely they lack I don’t know what
basic ingredient, though they present themselves
as noble or serious, at times.
Oh, terribly serious,
even tragic.
Poor things, one would say that they hear
neither the song of the air nor the secrets of hay;
likewise they seem not to see what is visible
and common to each of us, in space.
And they are sad,
and in the wake of sadness they come to cruelty.
All their expression lives in their eyes – and loses itself
to a simple lowering of lids, to a shadow.
And since there is little of the mountain about them –

nothing in the hair or in the terribly fragile limbs
but coldness and secrecy – it is impossible for them
to settle themselves into forms that are calm, lasting
and necessary.
They have, perhaps, a kind
of melancholy grace (one minute) and with this they allow
themselves to forget the problems
and translucent inner emptiness
that make them so poor and so lacking
when it comes to uttering silly and painful sounds:
desire, love, jealousy –  (what do we know ?)

– sounds that scatter and fall in the field
like troubled stones and burn the herbs and the water,
and after this it is hard to keep chewing away at our truth.

*

En Español:

“Mira al Hombre el Buey”

.

Son tan delicados (más que los arbustos) y corren

y corren de un lado a otro, siempre olvidando algo.

Seguramente, les falta no sé

cual atributo esencial , aunque presentan a si mismos

como nobles or serios – a veces.

Ah, profundamente serios,

aun trágicos.

Pobrecitos, alguien podría decir que no escuchan

ni la canción del aire ni los secretos del heno,

como también parecen que no observan lo que es visible

y común a cada uno de nosotros, en el espacio.

Y están tristes,

y a su paso de la tristeza llegan a la crueldad.

Toda su expresión vive en los ojos – y se pierde

en un simple bajar de los párpados, a una sombra.

Y ya que hay poco de la montaña en ellos –

nada en su cabello o dentro los miembros de una inconcebible fragilidad

solo el friolento y el secreto – para ellos, es imposible

acostumbrarles a las formas tranquilas, duraderas

Y necesárias.

Tienen, quizás, una cierta gracia melancólica (un minuto) y con ésta les permiten

olvidar la agitación incómoda

y el vacío interior transparente

que les ponen tan pobres y tan careciendo

cuando dan los sonidos absurdos y agónicos:

el deseo, el amor, los celos – ¡ No sabemos nada ! –

los sonidos que esparcen y caen en el campo

como las piedras preocupadas y queman la hierba y el agua,

y después de ésto es difícil a seguir rumiando el asunto de nuestra verdad.


.

Traducción al español por Alexander Best

*

“No meio do caminho”

.

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

*

In English:

“In the middle of the road”

.

In the middle of the road there was a stone
there was a stone in the middle of the road
there was a stone
in the middle of the road there was a stone.

Never should I forget this event
in the life of my fatigued retinas.
Never should I forget that in the middle of the road
there was a stone
there was a stone in the middle of the road
in the middle of the road there was a stone.

*

En Español:

“En el medio de la carretera”

.

En el medio de la carretera había una piedra

había una piedra en el medio de la carretera

había una roca

en el centro del camino había una roca.

Que nunca yo debería escaecer este acontecimiento

en la vida de mis retinas fatigadas.

Que nunca yo debería escaecer que en el medio de la carretera

había una piedra

había una piedra en el medio de la carretera

en el centro del camino había una roca.

 

.

Traducción (y interpretación) al español por Alexander Best

 

*     *     *

Carlos Drummond de Andrade, 1902 – 1987, was a Brazilian poet,

born in Minas Gerais.  His Portuguese poems often have a free-verse style,

and are full of every-day observations  seen through a socialist eye.

Translations into English from the original Portuguese by Mark Strand

Mark Strand is a Pulitzer-Prize-winning poet and translator.  His thoughtful

translations of de Andrade’s poems recreate the beautiful plain-ness of the originals.